Em meio aos debates sobre inclusão e representatividade, CODA – No Ritmo do Coração (2021) ganha destaque ao retratar a vida de Ruby, única ouvinte em uma família surda. O filme explora os desafios e as nuances de crescer entre dois mundos distintos.
Entre o pertencimento e a descoberta pessoal
Ruby cresceu assumindo responsabilidades muito maiores que sua idade: traduz as conversas dos pais, ajuda nos negócios da família e adapta seus desejos às necessidades dos outros. Como CODA — sigla em inglês para “Child of Deaf Adults” (filho de adultos surdos) — ela se vê constantemente entre dois mundos. Quando surge a oportunidade de seguir uma carreira musical, Ruby enfrenta um conflito profundo: atender às expectativas da família ou perseguir seu próprio caminho?
Esse impasse toca em questões universais: até onde devemos nos sacrificar pelos outros? Como conciliar pertencimento e individualidade? O filme não oferece respostas simples, mas mostra que a empatia e o diálogo são pontes fundamentais.
A representação importa
Um dos maiores trunfos de CODA é a representação autêntica da comunidade surda. Os pais e o irmão de Ruby são interpretados por atores surdos, o que garante mais veracidade às relações e situações retratadas. A língua de sinais é usada de forma natural, como parte essencial da narrativa e da identidade dos personagens.
Essa escolha reforça a importância de visibilidade e respeito às diferentes formas de comunicação e existência. Mais do que incluir, é preciso reconhecer e valorizar as especificidades de cada grupo.
Família, limites e afeto
A relação entre Ruby e seus pais é marcada por afeto, mas também por limites difíceis de negociar. Seus pais, embora amorosos, dependem dela para interagir com o mundo exterior. Ao mesmo tempo, têm dificuldade em compreender sua paixão pela música — algo que não podem ouvir nem compartilhar plenamente.
Essa tensão se intensifica em cenas emocionantes, como quando o pai de Ruby pede que ela cante para ele e tenta sentir sua voz através das vibrações. São momentos como esse que mostram o poder do afeto e da tentativa de compreensão mútua, mesmo com as diferenças.
Escolas, cultura e oportunidades
CODA também chama a atenção para o papel da escola e da cultura como espaços de revelação de talentos. O professor de música de Ruby é uma figura essencial nesse processo, pois acredita nela e a incentiva a seguir seus sonhos. Sem esse apoio, talvez ela não tivesse coragem de tentar.
Isso mostra como o incentivo correto, no momento certo, pode mudar trajetórias. E aponta a importância de ambientes escolares que respeitem a diversidade e sejam capazes de acolher diferenças.
Por uma sociedade mais inclusiva
Ao acompanhar a jornada de Ruby, o filme convida o público a refletir sobre o que é, de fato, ser inclusivo. Trata-se apenas de oferecer acesso? Ou de escutar, adaptar, permitir que todos tenham voz, sonho e lugar?
A história mostra que a inclusão verdadeira passa pelo reconhecimento das potências individuais e pela escuta ativa. Que toda família, instituição e comunidade podem (e devem) criar espaços onde diferentes formas de viver, se comunicar e se expressar sejam não apenas toleradas, mas celebradas.
CODA não é apenas sobre música. É sobre escutar o outro mesmo quando não há som. Sobre enxergar o valor das diferenças. E sobre ter coragem de seguir a própria voz, mesmo quando ela desafia o que o mundo espera de nós.

