Série de Luca Guadagnino transforma base militar em palco sensorial para identidade, desejo e resistência queer
Fardas, fluidez e confusão identitária
Em We Are Who We Are (2020), Luca Guadagnino transforma uma base militar norte-americana na Itália em um microcosmo de conflitos, desejos e descobertas. Não por acaso, o espaço é descrito pela New Yorker como “encantado, ameaçador e pulsando de sexo” — uma metáfora perfeita para a inquietação dos adolescentes que o habitam. A série, primeira incursão televisiva do diretor de Me Chame Pelo Seu Nome, reinventa o gênero coming-of-age queer ao justapor fardas e fluidez, disciplina e descontrole, autoridade e confusão identitária.
Um verão polarizado e sensível
Ambientada no verão de 2016, às vésperas da eleição entre Trump e Clinton, a série desenvolve sua narrativa em um cenário político altamente polarizado. Mas o verdadeiro epicentro é Fraser (Jack Dylan Grazer), nova-iorquino andrógino de 14 anos, que chega à base acompanhado da mãe, a coronel Sarah (Chloë Sevigny), e da madrasta, Maggie (Alice Braga). É ali que ele encontra Caitlin (Jordan Kristine Seamón), colega que experimenta outro nome — Harper — e uma nova maneira de se enxergar no espelho. Juntos, caminham pelas bordas do gênero, ainda sem a linguagem “certa” para nomear o que sentem — e talvez por isso, mais livres.
Estética do toque e do silêncio
A estética sensorial de Guadagnino é construída em parceria com os diretores de fotografia Fredrik Wenzel, Yorick Le Saux e Massimiliano Kuveiller, mergulhando o espectador na pele, no vento e nos silêncios de um cotidiano em suspensão. A trilha sonora de Dev Hynes, com sua mistura de synth-pop e sopros melancólicos, ecoa as descargas hormonais dos personagens: algo entre o êxtase e o vazio.
Narrativas espelhadas e afetos em trânsito
A estrutura espelhada dos episódios, todos intitulados Right Here Right Now, reforça a ideia de que cada história depende de quem a conta. Fraser e Caitlin, ao alternarem o protagonismo, tornam-se espelhos um do outro — uma troca que valida suas diferenças e desestabiliza o entorno. Sarah, por sua vez, ocupa o paradoxo de ser mãe e comandante, enfrentando dilemas que tensionam maternidade e autoridade.
Militarismo, raça e identidade em deslocamento
We Are Who We Are não se limita a uma narrativa de juventude queer; é também uma crítica ao militarismo, uma reflexão sobre raça e masculinidade (especialmente no embate entre Caitlin e o pai, interpretado por Kid Cudi), e uma cartografia das novas formas de pertencimento em tempos de fronteiras porosas. A base militar — um território norte-americano em solo italiano — torna-se símbolo de um “estrangeiro em todo lugar”, onde língua, comida e afetos estão sempre em tradução.
Do cancelamento ao renascimento na Netflix
Apesar da aclamação crítica (Metascore 77, Rotten Tomatoes 90%), a série teve baixa audiência e não ganhou continuação. Em 2024, no entanto, sua entrada no catálogo global da Netflix reacendeu o interesse dos fãs e promoveu novas leituras — agora em um contexto pós-boom de séries LGBTQIA+ e sob o impacto de políticas anti-trans e crises de saúde mental entre jovens.
crescer como revolução
A potência de We Are Who We Are está justamente em assumir a incerteza como forma. Crescer, sugere Guadagnino, não é chegar a um lugar fixo — é aprender a conjugar a identidade como verbo em movimento. Entre marchas, festas, beijos e cortes de cabelo, os adolescentes da série descobrem que ser quem se é pode ser um ato político — e, às vezes, revolucionário.

