Na São Paulo de contrastes extremos, entre prédios de luxo e periferias esquecidas, nasce uma história que desafia os limites do horror e da ternura. As Boas Maneiras (2017), dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, não é apenas uma obra de terror com toques fantásticos — é uma análise poética e inquietante sobre os vínculos humanos que nascem na margem, crescem sob tensão e resistem, mesmo diante da monstruosidade.
Quando a enfermeira Clara (Isabél Zuaa) é contratada por Ana (Marjorie Estiano), uma jovem rica com hábitos noturnos perturbadores, o que se desenrola é muito mais do que um thriller sobrenatural. É um retrato íntimo de cuidado, maternidade e desigualdade social.
A maternidade como metáfora e abismo
O nascimento de Joel, sob a luz da lua cheia, não marca apenas o início da narrativa fantástica: ele acende o dilema central do filme — como amar o que não se entende? Clara, vinda da periferia, encontra em Ana e seu filho um desafio à lógica da proteção convencional. A maternidade, aqui, não é instinto ou biologia, mas escolha — e, muitas vezes, sacrifício.
O roteiro subverte arquétipos clássicos ao posicionar a figura materna como guardiã não da inocência, mas do perigo. Ao mesmo tempo, o horror lupino de Joel não é uma punição, mas um convite à empatia radical.
Entre o luxo e a margem: o cenário como crítica
A ambientação de As Boas Maneiras é crucial para o impacto narrativo. São Paulo é mostrada como uma cidade fraturada, onde apartamentos com vista panorâmica convivem com ruas de concreto sem esperança. A escolha por cenários construídos com matte painting acentua o contraste entre o real e o artificial, refletindo a distância entre Ana e Clara.
Ana, isolada em sua bolha futurista, representa uma elite cercada de conforto e incomunicabilidade. Já Clara, movida pela necessidade e pela ética do cuidado, transita entre mundos — tornando-se ponte, testemunha e agente de transformação.
Feminilidade que transgride
Se o horror tradicional costuma marginalizar ou fragilizar personagens femininas, Rojas e Dutra fazem o oposto: colocam-nas no centro. Ana e Clara desafiam expectativas sociais ao formarem uma aliança improvável, que começa como relação de trabalho, passa pelo afeto e chega à maternidade conjunta.
A força de suas performances — especialmente a de Isabél Zuaa — ancora o surreal no terreno emocional. Mesmo diante da transformação monstruosa, o foco nunca sai da experiência humana: medo, perda, ternura.
O corpo como território de disputa
A transformação de Ana em criatura — lenta, dolorosa e inevitável — serve como metáfora de um corpo que resiste ao controle. Em um mundo que tenta domesticar tudo o que escapa à norma, sua metamorfose evoca temas como autonomia, repressão e desejo. Joel herda essa ambiguidade: um ser cuja existência exige reinvenção constante dos limites do afeto e da proteção.
Trilha e luz: estética do estranhamento
A estética gótica de As Boas Maneiras reforça a sensação de estranhamento. A trilha sonora minimalista pontua momentos-chave com delicadeza inquietante, enquanto o uso expressivo de luz e sombra evoca o cinema expressionista sem deixar de dialogar com a realidade brasileira.
As transições tonais entre fantasia e drama social são suaves, mas intensas — um feito raro no cinema nacional. A atmosfera é construída não pelo susto fácil, mas pela tensão que cresce silenciosa, até o desfecho que desafia normas e expectativas.
Mais que gênero: uma fábula social
A grande força de As Boas Maneiras está justamente na sua recusa em se limitar a um gênero. Ao misturar horror, fábula e drama social, o filme constrói um comentário afiado sobre exclusão, maternidade e os pactos silenciosos que sustentam ou rompem as estruturas sociais.
Sem discursos diretos, o longa sugere que cuidar é também um gesto político — sobretudo quando se cuida do que o mundo prefere esconder. Nesse sentido, a obra conversa com temas urgentes do nosso tempo: saúde, desigualdade, justiça e, sobretudo, a possibilidade de relações mais horizontais entre os diferentes.
As Boas Maneiras é um marco do cinema fantástico brasileiro não apenas pela ousadia estética, mas pela delicadeza com que trata o estranho, o indesejado e o improvável. A monstruosidade que emerge da lua cheia não assusta tanto quanto as violências silenciosas da exclusão, do preconceito e da solidão.
Em tempos de muros físicos e simbólicos, o filme nos lembra que vínculos — especialmente os femininos — podem ser mais fortes que o sangue e mais revolucionários que qualquer transformação sobrenatural. Porque, no fim, é cuidando que se desafia o que parece imutável.

