Cinebiografia de Roberto Berliner retrata a revolução humanista de Nise da Silveira na psiquiatria brasileira do século XX
Uma mulher à frente do seu tempo
Dirigido por Roberto Berliner, Nise – O Coração da Loucura reconstrói, com precisão emocional e política, a trajetória revolucionária da psiquiatra Nise da Silveira, que, nos anos 1940, transformou o tratamento de pacientes com esquizofrenia no Brasil.
A trincheira do Setor de Terapia Ocupacional
Baseado em fatos reais, o longa se passa no Hospital Pedro II, no subúrbio do Rio de Janeiro, onde Nise (vivida com delicadeza e firmeza por Glória Pires) reassume seu cargo após anos de perseguição política. Ignorada pelos colegas e afastada dos métodos convencionais, a protagonista assume o recém-criado Setor de Terapia Ocupacional — e o que começa como punição torna-se trincheira de resistência humanista.
Arte contra a violência institucional
Em contraste com os métodos violentos da época, como a lobotomia e o eletrochoque, Nise propõe oficinas de pintura, escultura e jardinagem. Convivendo com animais e expressando-se por meio da arte, os pacientes — que ela prefere chamar de “clientes” — revelam sensibilidades até então sufocadas. O resultado é tão transformador quanto perturbador para uma instituição habituada a silenciar.
Estética e subjetividade em cena
A estética do filme reforça a potência desse processo. As obras reais produzidas por pacientes — muitas hoje parte do acervo do Museu de Imagens do Inconsciente — não apenas compõem o cenário, mas atravessam a narrativa como vozes visuais, registrando dores, sonhos e reconexões com o mundo. A obra torna-se, assim, também uma galeria viva da subjetividade humana.
Glória Pires: presença firme diante da exclusão
A performance de Glória Pires sustenta, com gravidade e empatia, uma personagem que desafiou o machismo médico e a psiquiatria autoritária. A relação com pacientes como Alzira e Marcos — vividos com brilho por Simone Mazzer e Roney Villela — mostra como a arte transforma o tratamento e restitui a identidade de quem sempre foi tratado como “caso perdido”.
Um legado clínico, político e pedagógico
Nise vai além do retrato biográfico. É também um grito contra a desumanização nos sistemas de saúde, uma aula de ética profissional e um convite à reinvenção das práticas clínicas. Seu legado, refletido na criação da Casa das Palmeiras e no reconhecimento (ainda tardio) de sua importância, continua a inspirar terapeutas, educadores e artistas.
Agenda 2030: saúde, igualdade e inclusão
O filme também ecoa compromissos da Agenda 2030 da ONU. Propõe saúde mental com dignidade (ODS 3), valoriza o protagonismo feminino (ODS 5), denuncia a exclusão histórica de pessoas com transtornos mentais (ODS 10) e reafirma o papel da arte como ferramenta pedagógica e política (ODS 4 e 16).
Escutar é curar: o gesto político da empatia
Ao fim, Nise – O Coração da Loucura lembra ao espectador que tratar a loucura é, antes de tudo, um gesto de escuta, de presença e de coragem. E que, muitas vezes, os verdadeiros curadores são aqueles que ousam ver beleza onde o sistema só enxerga silêncio.

